terça-feira, 10 de novembro de 2009

Anjos e Demônios (ou "JUIZES ADOLESCENTES e suas fraldas que começam a extravasar...")

Não é de hoje que venho manifestando uma imensa preocupação com as decisões e andamentos processuais por aí.

Quando escolhi o curso de Direito para começar a carreira profissional, estabeleci para mim mesmo que, antes de eleger uma "profissão", estava ali, naquele momento, elegendo mesmo um modo de vida, um jeito de intervir positivamente na sociedade, de ajudar a trazer equilíbrio às relações sociais e evitar a concentração desmedida de riqueza em detrimento dos direitos individuais e coletivos.

Pensei em fazer isso na Magistratura, mas logo aprendi que não seria ali, decidindo, que teria o espaço para isso. Pois quem decide não pode (ou não poderia, na minha interpretação) escolher lados e defender o que acredita. Quem decide deve aplicar OBJETIVA e IMPARCIALMENTE a lei, os princípios, a equidade e as noções básicas de justiça e bem comum, antes de eleger um lado e lutar bravamente por ele. Por outras palavras, acredito que o juiz até pode deixar de ser neutro em prol do que acredita, mas é sua função social, remunerada pelos cidadãos, decidir com clareza em nome da lei e de forma imparcial, mesmo que tal decisão seja contrária a suas crenças individuais.

Com base nessa constatação, larguei a ideia de ser juiz e me dediquei a ser um bom advogado. Talvez num outro dia eu possa vir aqui falar sobre a minha vida de advogado, mas hoje quero falar sobre algo que me povoa os pensamentos há tempos e não deixa de me incomodar: estou farto de juizes adolescentes!!!

Me refiro àqueles moços e moças bem-educados, filhos de famílias tradicionais e as vezes até de Desembargadores conhecidos (coincidência, claro!), que passaram toda sua vida acadêmica nos melhores colégios particulares do país, para lograrem êxito no seu primeiro (ooohhhh!) ou segundo vestibular para uma Faculdade qualquer e, 5 anos depois, se considerarem aptos para o oficio de CANETEAR, DETERMINAR, MANDAR, CONDENAR e DECIDIR a vida de milhares, quiçá milhões de cidadãos nesse país de valores e costumes, digamos, um pouco "deturpados".

Tenho SIM problemas de várias ordens com cretinos que nunca botaram a bunda numa cadeira de empresário ou administrador de empresas, mas se acham aptos, especiais e iluminados o suficente para decidir mandar prender um sujeito que não recebeu a citação para se defender numa Execução tributária e acabou sendo condenado, julgado "culpado" à revelia, por esse juiz que não faz a menor ideia do que é a atividade empresarial e a criação (e principalmente manutenção) de empregos num país em que só se dá bem quem é amigo do Rei.

Tenho SIM problemas ainda maiores com idiotas que, sem nunca terem dado emprego a um brasileiro sequer (ou seja, não sabem exatamente o que é recolher FGTS, dar licença à gestante, contratar porteiro folguista, não sabem NADA de NADA fora das páginas dos manuais), e, na maioria das vezes, não terem também TRABALHADO efetivamente antes de passar num concurso de cartas marcadas, mandam bloquear a conta-corrente de uma empresa por dívida trabalhista sem avaliar, antes disso, se há bens que possam ser dados em garantia sem que, para que seja quitado o saldo de uma dívida em favor de UM ex-empregado, seja a empresa obrigada a fechar as portas porque ficou sem recursos para pagar os salários de outros 600 empregados atuais.

Tenho SIM problemas infinitos com estúpidos riquinhos que já eram recebidos com piscina de bolinha nos eventos que os gerentes de contas altas davam aos pais desses juizes no passado, para corroborar a "relação social", e que hoje autorizam um Banco a inscrever o nome do cliente nos SPC e SERASA da vida enquanto a dívida, que todo mundo sabe que esses Bancos cobram com juros capitalizados, tarifas "estranhas" e milhares de outras irregularidades, está sendo devidamente discutida em Juizo, como se o coitado fosse primeiro obrigado a PAGAR a dívida irreal, exagerada e ilícita, achando dinheiro em árvore, para só depois ter o direito de não ser considerado um pária, um biltre, um torpe devedor... mesmo que a dívida seja considerada inexistente ou ilegal, o prejuizo já ocorreu...

Tenho SIM problemas que me tiram a paciência com Vossas Excelências que, mesmo sem nunca terem estagiado num escritório, nunca terem conversado com uma pessoa necessitada de auxilio para fazer valer um direito básico, nunca terem dependido de um contrato e de um trabalho para por comida na mesa (lembro que o subsídio inicial para juizes no Paraná, hoje, é de pouco mais de R$ 15 mil), mesmo assim esses donos da verdade acham "justo" fixar em R$ 300 os honorários para o advogado que vence a ação depois de longos 6 ou 7 anos trabalhando nela.

Tenho problemas mesmo...

Não estou nem perto de aceitar com tranquilidade que, dia após dia, seja permitido que mocinhas possam ser aceitas em concursos e, depois, serem empossadas Juizas depois de passar os 5 anos da Faculdade sem olhar pela janela para ver o mundo lá fora, indo e voltando de carro do ano para as aulas, sem nunca participar de centro acadêmico, nunca ter trabalhado de verdade (tô falando de por a mão na massa, não dessa balela de fazer estágio de 3 horas por dia no gabinete do desembargador amigo do papai), nunca ter sequer tentado saber da realidade do mundo, sem nunca sequer ter vivenciado um pouco da instabilidade que permeia as relações sociais um passo além do mundinho cor-de-rosa em que essas Vossas Excelências, lindíssimas em seus terninhos Armani e suas viagens anuais a Paris, se acostumaram a viver.

E não me venham com esse papinho de que o concurso é justo, quem pode mais chora menos, quem se prepara merece, etc...

O fato aqui é que estamos falando de um munus público, uma função social na acepção mais correta do termo, e não de um EMPREGO!!! Não de um mero trabalho remunerado pelo qual você presta um serviço a alguém e esse alguém te remunera de acordo com as leis do mercado.
NÃO!!!

A Magistratura não é (ou não deveria, novamente na minha interpretação pessoal) algo que Vossa Excelência faz por si próprio/a, é algo que não pode perder de vista o resultado para a sociedade antes de resultado para o seu bolso ou realização pessoal!!!!
Não é o espaço para uma "carreira" nem para o acúmulo de riqueza, é o espaço que a sociedade construiu, histórica e evolutivamente, para aqueles dotados do dom do equilíbrio e da sabedoria influenciarem positivamente (e não apenas "sem atrapalhar") na justiça social!!!!

Ninguém colocou uma arma na cabeça dessas senhoritas juizas adolescentes para que entrassem na Magistratura, ao contrário!!! Elas lá estão porque gostam do status, ou porque sabiam que papai poderia ajudar (já que não as poderia ajudar se resolvessem, digamos, TRABALHAR de verdade), ou porque em algum momento acreditaram que seriam "especiais" se atingissem esse êxito social, ou porque querem ser respeitadas, enfim... motivos não faltam.

Mas quem, dentre vós, juizes e juizas, aceitaria continuar no ofício pelo DOM que têm, caso, por exemplo, a função deixasse de ser remunerada ou fosse remunerada com os mesmos parcos R$ 300 por ação decidida que vocês dão aos advogados que, ao contrários de vocês, labutam numa tese e defendem um cliente contra tudo e contra todos, dentro da lei e da moralidade, por SETE anos?

Humildemente, seriam Vossas Excelências, que muitas vezes esquecem que são meros orientadores das audiências e dos processos, para se tornarem os imperadores, os Napoleões, os fuhrers do processo, capazes de reconhecer que, se vocês passaram a vida inteira se dedicando a LER sobre o Direito, isso não quer dizer que vocês tenham VIVIDO bosta nenhuma do Direito?

Vocês, podem, minhas caras donzelas magistradas que nunca botaram o derriére na cadeira do réu ou do autor e nunca tiveram que trabalhar em escritórios (onde o Direito realmente acontece no dia a dia) porque papai lhes alimentava dos 16 aos 23 anos, perceber e admitir que viver dos eventos sociais da balada Curitibana e dos jantares no Country não lhes afasta do fato de nunca terem vivido, verdadeiramente, relações no mundo social (contratos, indenizações, atividade empresarial, o que seja...)?

Seu mérito em passar num concurso pra juiz, com todo o respeito, só prova sua capacidade de leitura, memorização e raciocínio lógico (ok, para efeitos didáticos, vamos considerar nesse texto que o seu sobrenome ou a amizade de papai com não sei quem não tiveram influência alguma na sua aprovação...), o que eu louvo, mas... você não acha que poderia saber um pouco mais da vida para se considerar "apta" a decidir os destinos das vidas que você só lê no papel?

Vocês, juizes adolescentes, vivem do que leram nos livros e dos relatórios processuais como se isso fosse suficiente para definir e arbitrar realmente as complexas relações sociais? Fazem essa análise diariamente para escolher se seguem na profissão ou se não seria, talvez por justiça social, melhor pedir exoneração e deixar alguem mais preparado assumir essa dificil função de MANDAR NA VIDA DOS OUTROS? Afinal, repito... ninguem está te obrigando, não é mesmo?

Me desculpem, nobres magistrados... alguma coisa aconteceu com vocês ou com esse mundo que os recebeu. Talvez não seja culpa sua, assim como as favelas no Rio e a fome na Africa não são culpa sua, afinal, você só está andando por aí com seu sapato Fendi bonitão por esforço próprio, não é mesmo? Quer dizer... você recebe seus altos ganhos mensais do MEU IMPOSTO e deixando a sociedade sem recursos para alimentação e saneamento básico porque você e sua clase exigem equiparação com os Ministros do STJ, mas isso não passa de um direito conquistado por você, com muito estudo e muito esforço de leitura, não é mesmo ?

Me desculpe, nobre colega jurista que se perdeu em algum momento na transição entre esse conhecimento hermético dos livros, das apostilas dos Cursinhos Jurídicos, para a vida real em que suas palavras determinam a FOME de uns e o lucro de outros... mas isso nao é suficiente para mim...

Os seus livros, seus cursinhos, seus relatórios, seus bancos de jurisprudência não dão respostas, dão apenas orientaçoes... as respostas é a vida que dá, mas parece que Vossa Excelência resolveu que da vida lá fora não precisa, não é mesmo?

Aí do seu gabinete com ar condicionado, 60 dias de férias por ano, o problema VERDADEIRO que acomete o mundo é a resolução do CNJ que te mandou trabalhar mais do que era costume, não é mesmo?

Se o advogado que lutou sete anos numa causa leva R$ 300 de sucumbência isso não é problema seu, não é mesmo? Justiça pra quê? Equidade pra quê? Equilíbrio nas relações sociais pra quê?

O que te importa é cumprir metas, o que te importa é conseguir equiparação de ganhos com sei lá qual categoria, o que te importa é pagar o carrão importado que "todo juiz deve ter, pela imagem que deve manter de sobriedade", não é mesmo?
Vossa Excelência se acha um anjo, vive como um anjo, recebe a remuneração que os anjos só podem almejar... Mas é, na verdade, o demônio que converte a Justiça e o Direito num balcão profissional, numa fonte de renda simplesmente... quando deveria ser o espaço mais nobre e sério sobre o qual todos os demais pilares da sociedade se assentam!

Bah, pra mim chega... tá na hora de aceitarmos, Vossa Excelência e eu, que não nascemos para o mesmo mundo, mas de alguma forma temos que compartilha-lo...

Só o que te pergunto, então, é isso: vai fazer algo por ele, já que te caiu no colo essa maravilhosa oportunidade e essa forte caneta que manda e desmanda?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Do CONTRA!!!!

Instintiva ou inconscientemente, acabei por deixar que minha personalidade fosse moldada com base em pelo menos um critério que, se antes considerei indumentária apropriada para uma mente literalmente nua de considerações emocionais, hoje simplesmente considero ridículo.

Esse critério é resultante de uma confrontação infinita com o mundo que se vê, de uma possível busca inconsciente por isolamento e afastamento da sociedade comum e, sobretudo, de uma educação e formação psicológica incrivelmente voltada para o sucesso e a obtenção de resultados objetivos, o que, não há dúvidas, me tornou algo, digamos... incapaz de avaliar e compreender as sutilezas que a subjetividade propõe aos indivíduos, convertendo-me num sujeito, que sob o manto da busca incessante pela superação dialética e pelo respeito ao "bem comum", na verdade parecia - aos olhos do resto do mundo - um velho ranzinza e chato que, embora possa até ter razão no que diz, simplesmente não é agradável.

Resumindo, virei um DO CONTRA, esse tipo de sujeito que adora opinar (mesmo que somente quando perguntado, ou seja, não quero dizer que saía por aí deblaterando minhas bobagens na rua) e ter algo a dizer (sempre em prol do bem comum e de um comportamento socialmente benéfico, fique bem claro!).

O problema é que, assim, acabei firmando pé em tanta coisa... virei contra música eletrônica, contra a Direita, contra o conservadorismo, contra a yoga, contra TUDO!

Mas... penso cá... quem é contra TUDO acaba sendo contra TODOS também!

Demorei a perceber que ser contra algo não mudava porcaria nenhum no mundo à minha volta. Melhor dizendo, mudava sim: reduzi o potencial de ser aceito e me tornar amável para diversos grupos, diversas pessoas, consideráveis situações.

Não mudei o mundo em nada, como eu achava que faria se continuasse tendo opiniões firmes e consolidadas sobre o que é bom para esse tal mundo, mas mudei, sim, a mim mesmo: tornei-me alguem cuja companhia só interessa até me confrontarem em alguma dessas tantas opiniões imbecis. Tornei-me alguém bom para unir-me a um grupo e marchar na rua, para formar partidos ou participar de congressos sobre aqueles assuntos que criticam o que eu sou contra, mas numa conversa de bar com amigos ou com parentes, somente fui agradavel até o limite em que alguem discordava do que eu dizia.

Com isso, criei, alimentei e estimulei inimizades mais do que amizades. Confrontos mais do que apaziguamentos. Ojeriza mais do que simpatia. E, principalmente, uma imagem intolerante e intransigente mais do que uma aprazível e efetivamente dialética.

Errei.

Reconheço, hoje, e sinto terrivelmente pelo tempo que levei até essa constatação. Lamento mais ter levado tanto tempo para perceber isso do que posso me sentir confortado e feliz por quaisquer das posições "firmes" que mantive por tanto tempo terem, efetivamente, resultado em algo de positivo para o mundo.

Dificil vida essa de hoje, pra mim, e por minha culpa exclusiva. Não percebi a imbecilidade de criticar o axé ou o pagode com tamanha veemencia, pois, mesmo que eu não goste e continue achando musicalmente fraco e sem sentido fazer esse tipo de som, com isso criei, inquestionavelmente, uma barreira fortissima contra qualquer pessoa que seja ligada a essas coisas. Não que me faça falta ter amigos pagodeiros mais presentes, com seus pandeiros, seus atabaques e suas indefectíveis músicas de corno. Mas... por que diabos decidi, em algum momento, que nunca ia quere-los de forma alguma?

Quer dizer... quando escolhi ser CONTRA, de forma tão robusta e insofismável, pessoas que andam com caminhonetes gigantescas, dessas que são quase um caminhão, pelas ruas asfaltadas da cidade, no fundo não estava reduzindo o seu número pelas ruas da minha cidade (ou seja, não criei "bem" algum) mas estava criando uma forma de, quando encontrar um proprietário de um desses veículos, já começar uma possível conversa perdendo de um a zero, pois já estava pré-agendado um conceito de crítica que era uma bomba relógio esperando pra explodir.

Aí meu pai aparece com uma dessas... gigante, ocupa mais do que a sua faixa nas ruas estreitas, ocupa mais da vaga quando estacionada, faz um barulhão e solta muita fumaça.
Mas... e daí?
Fato é que, antes, xinguei quem conduzia essas coisas monstrengas, mas nem por isso xingo meu pai hoje. Ou seja, errei antes ao impor vontades pessoais e subjetivas minhas como fundamento para formar uma opinião tão firme, quando, hoje vejo, seria mais simples e saudável somente ter tido o pensamento, ou avaliado essas vontades, sem no entanto criar uma barreira tão rigorosa CONTRA a coisa em si. Cada um com seu cada um, como diria o velho sábio...
Enfim, quero deixar esse registro porque percebo, finalmente, a imensa falha de formação de caráter que eu, do alto do meu pódio de "princípios, valores e rigidez moral", induzi a mim mesmo nesses longos anos de ter opinião sobre tudo.

Não quero mais, porque de uma vez por todas decidi viver melhor, sorrir mais, ter menos desconforto gástrico, mesmo que isso signifique não ser tão firme assim em opiniões e visões sobre o que quero, ou melhor, sobre o que posso, exigir do mundo à volta.

No espaço individual que cada um tem num mundo relativamente livre e repleto de possibilidades, não quero mais ser uma pessoa que chama à atenção no primeiro contato por parecer racional, culta e atual, mas que, com o tempo, invariavelmente se torna intragável. O que é perfeitamente compreensivel, pois pode ter certeza de que, com tempo e paciência, qualquer um conseguiria tranquilamente se tornar meu inimigo em alguma bobagem qualquer.

Não quero mais... não sou mais CONTRA nada (ok, essa parte fica mais no wishfull thinking do que numa avaliação correta da realidade, admito...), não sou mais cheio de opinião e, se o for, quero deixar bem claro que essa eventual opinião é SIM flexível e argumentativa.

Não quero mais ver o mundo desabar sobre a minha cabeça porque minha família faz algo que tanto critiquei em algum momento dessa vida tola de tentar moldar o mundo pela minha convicção. Ou quando meus amigos resolvem gostar de uma música que destrinchei, no passado, acorde por acordo, para considera-la idiota. Ou quando tomei a decisão de não gostar disso ou daquilo, mas a pessoa que eu amo gosta de fazer exatamente esse isso ou aquele aquilo e eu, por ser um belo de um cretino, me recuso a fazer com ela "só porque sou/fui contra".

Grande porcaria que fui contra, ora bolas, posso decidir fazer companhia para ela se a coisa não me torturar, não é mesmo?

Pra falar a verdade, a partir de agora, sou CONTRA ser CONTRA!

Quero preencher essa minha cabeça de possibilidades e hipóteses, chega de muros e redomas!

P.S.: quem citar Metamorfose Ambulante pra comentar esse post vai levar uma tamancada! Sou contra Raul Seixas...
...
...
ohhh céus, here we go again...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Em Defesa de Barrichello (por incrível que pareça!)

Posto isso hoje mais para mim mesmo, para uma eventual futura referência que, no fim dos meus dias, me ajude a fazer justiça nas opiniões que tenho sobre RRRRRRRubens Barrichello.

O texto não é meu, mas parece que cada letra, frase, expressão e opinião de fundo (mesmo as subentendidas ou implícitas) poderiam ter também saído de meu teclado.

Flavio Gomes, o jornalista mais sério e correto que já lidou com Formula 1 neste país, é o autor e o texto é integralmente transcrito de seu blog pessoal, o qual indico para quem quiser, um dia, escapar da lobotomia da TV Globo no que se refere a esse esporte: http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/

obs: eu só troquei a foto - substituí a que estava na coluna dele por essa muito mais interessante na qual um colega da equipe Brawn bota o dedo no tesouro do Rubinho na maior cara dura! hehehe!


19/10/2009 - 21:41
EM DEFESA DE BARRICHELLO
SÃO PAULO (e chega) – De todas as pessoas que encontrei hoje, ouvi: “Esse Rubinho é um cagado, mesmo”, “Puta azar deu o Rubinho”, “Esse Rubinho é muito ruim”, “O cara é muito azarado, tinha de furar um pneu?”, “Esse cara é muito ruim, não vai ser campeão nunca”, “Quando a gente mais espera dele, faz isso”.

E algumas variáveis sobre o mesmo tema.
Eu já tinha dessa impressão, mas depois deste fim de semana, tenho certeza. O problema de Barrichello não é ele, não são seus carros, não são seus companheiros de equipe. O problema de Barrichello é a TV Globo.

E por que a Globo, e não toda a mídia? Porque não se deve ter nenhuma ilusão. A imensa maioria das pessoas no Brasil só se informa sobre F-1 pela Globo. “Se informa” é um eufemismo, melhor corrigir. Digamos que a cultura de F-1 que a imensa maioria das pessoas tem no Brasil vem daquilo que a Globo diz.
E a Globo só diz besteira. A cultura de F-1 do brasileiro médio é zero, talhada pelas cascatas globais.

Barrichello não fez nada de errado ontem, não errou ao tentar a pole com o carro mais leve, não teve azar nenhum, não foi cagado. Mas a histeria global, martelada dia após dia — e quando a corrida é no Brasil, e ele está na pole, chega a ser quase uma lavagem cerebral, uma lobotomia —, faz com que o público aqui acredite que Rubinho do Brasil tem a obrigação de ganhar, e se não ganhar, das duas uma: ou sacanearam com ele, ou é um cagado que não tem mais jeito.

As pessoas veem uma corrida de F-1 aqui com zero de informação honesta. Ontem, depois de dez voltas já era possível afirmar que Rubens não venceria a prova. Simples: não abria de Webber e iria parar cinco voltas antes nos boxes. Cinco voltas, com um carro mais rápido e cada vez mais leve, seriam mais do que suficientes para Webber voltar à sua frente do pit stop. E Kubica, também. Ambos passaram.

Rubens apostou no clima instável de São Paulo, no que fez muito bem. Larga na pole, pula na frente, vai que chove no início, todos têm de parar, a vantagem do carro mais pesado é anulada. Ou, ainda: acontece alguma merda atrás dele, Webber se enrosca, Kubica bate, fica para trás, e a vantagem é igualmente anulada.
Mas há uma desonestidade editorial clara naquilo que a Globo faz, alimentando uma expectativa que não poderá ser cumprida. Porque corrida de carro é muito mais do que essa gritaria de “Vâmo, Rubinho!”, “Não erra agora, Rubinho!”, “Acelera, Rubinho!”. Corrida de carro tem lógica, é matemática, e quem mostra um evento desses a milhões de pessoas tem a obrigação de ser honesto.

Porque se não for, as pessoas não têm elementos para entender a derrota. E se amparam na explicação que está à mão: o cara é cagado, dá azar, não vai ganhar nunca. Ou, ainda: furaram o pneu dele de propósito.

E, aí, vai-se criando a fama, dia após dia, de perdedor, azarado, cagado. Uma farsa, uma mentira. A TV mente o tempo todo. Foi assim nos anos pós-Senna, em que Barrichello, de Jordan ou Stewart, não tinha a menor chance de ganhar uma corrida, embora a TV dissesse o contrário.

Porque corria contra Williams, Ferrari, McLaren, Benetton. Depois, na Ferrari, a venda de ilusões baratas era igualmente cruel, porque contra um piloto como Schumacher, Barrichello jamais seria campeão. Não seria porque Schumacher era muito melhor. Se eu for companheiro de Barrichello numa corrida de qualquer coisa, não terei chance alguma de andar na frente dele. Deem um kart para ele e outro para mim, e ele vai chegar na frente todas as vezes. Entreguem um Lada igualzinho ao meu, e não vou ser mais rápido que ele nunca, em nenhuma volta.

Mas a Globo vende a esperança, porque acha que as pessoas só vão se interessar por seu evento se houver a chance de um brasileiro vencer, mesmo se for uma mentira deslavada, como na maioria das vezes. É um engodo, e uma sacanagem com o piloto. A expectativa que se cria por seus resultados é criada na TV. OK, muitas vezes Rubens embarcou na onda, mas é o menor dos culpados.

Se a TV não se dedicasse tanto a iludir seus telespectadores tratados como otários, Barrichello não seria zoado como é há anos, pela Globo inclusive. Poderia conduzir sua carreira com mais tranquilidade e serenidade. Ele não tem a obrigação de vencer por ninguém, pelo povo, pelo país. Tem obrigação de trabalhar direito para quem lhe paga, e por ele mesmo.

Um dia depois de uma corrida normal, na qual fez o que podia fazer dentro dos limites de seu carro e de seu talento, o coitado tem de aguentar um tijolo a mais nessa construção de uma imagem que não corresponde à realidade. Barrichello pode não ser o melhor piloto do mundo, está longe disso, mas é um dos bons dos últimos anos, como outros tantos. Nem muito mais, nem muito menos. Não estaria há tanto tempo correndo se não tivesse qualidades.

Quando parar, muito provavelmente sem ter sido campeão, terá para sempre colado na testa o rótulo de cagado, azarado, lento, o que for. Pode agradecer à TV por isso. Foi ela que, nesses anos todos, disse ao Brasil que Rubens era algo que nunca foi. Talvez ele nunca entenda isso, até porque adora ser bajulado pela Globo, com seu pseudo-jornalismo esportivo meloso, ufanista e cascateiro. Mas é assim.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

5) I am The Walrus

I am he as you are he as you are me and we are all together.

See how they run like pigs from a gun, see how they fly.
I'm crying.

Sitting on a cornflake, waiting for the van to come.
Corporation tee-shirt, stupid bloody tuesday.
Man, you been a naughty boy, you let your face grow long.

I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g'joob

Mister city policeman sitting
Pretty little policemen in a row.
See how they fly like lucy in the sky, see how they run.
I'm crying, i'm crying.
I'm crying, i'm crying.

Yellow matter custard, dripping from a dead dog's eye.
Crabalocker fishwife, pornographic priestess,
Boy, you been a naughty girl you let your knickers down.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g'joob.

Sitting in an english garden waiting for the sun.
If the sun don't come, you get a tan
From standing in the english rain.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g'joob g'goo goo g'joob.

Expert textpert choking smokers,
Don't you thing the joker laughs at you?
See how they smile like pigs in a sty,
See how they snied.
I'm crying.

Semolina pilchard, climbing up the eiffel tower.
Elementary penguin singing hari krishna.
Man, you should have seen them kicking Edgar Allan Poe.
I am the eggman, they are the eggmen.
I am the walrus, goo goo g'joob g'goo goo g'joob.

A experiência de vida, e nada além dela, nos ensina que, não raro, das coisas mais lógicas e racionais não se tira nada! E, por outro lado, das coisas mais ilógicas e irracionais às vezes podemos retirar tudo (ou muito) do que precisamos... muitas respostas vêm das perguntas mais confusas e caóticas que podemos nos perguntar.

Exemplo claro e típico talvez seja a indagação máxima de Wittgenstein, muito elaborada (embora sem resposta definida prática) nas filosofias milenares do Oriente: Quem Sou Eu? Quem Somos Nós?
Em 1967, entre viagens de ácido, Lennon teria escrito versos completamente sem sentido que, mais tarde, McCartney teria organizado (ou ambos em conjunto, é um mistério...) nessa música.

As linhas fundamentais teriam sido "I am the walrus" e "I am the eggman", mas em LOVE a gente pode destrinchar essa letra em tantos significados... Talvez o que mais importe aqui seja o começo... quando se diz que eu sou ele, ele é você, nós todos SOMOS ao mesmo tempo...

Somos todos, de tempo em tempo e, as vezes, realmente ao mesmo tempo, a morsa e o ovo, o lider e o seguidor, um garoto rebelde e o policial que o censura, e até mesmo a horrenda meleca amarelo-pus que sai do olho de um cachorro de rua quase morto.

Fato é que, quanto mais tentarmos nos explicar, quanto mais buscarmos racionalidade na pergunta "quem sou eu", mais perceberemos que somos o pobre que se acha expert e, afinal, só o que angariamos nessa busca, quando ela é pra fora e não dentro, é a gargalhada do mundo a nossa volta...

Tão insana como a ideia de penguins cantando hare krishna é a ideia de que somos algo em absoluto, de que podemos nos definir com precisão... e sobretudo a ideia de que nós somos algo superiores a qualquer outra coisa... Insistir nisso não é tão diferente do que imaginar porcos em meio a um tiroteio ou um maluco se bronzeando na chuva! Simples e claro nonsense e é sobre isso, senhores e senhores que eu, pessoalmente, acho que é essa música... o nonsense de um mundo sem sentido, no qual quem mais contribui para essa falta de sentido toda é a nossa insistente mania de colocar ou atribuir sentido a ele!

Numa entrevista à Playboy americana em 1980 John disse que não há nada tão nonsense quanto sair por aí cantando Hare Krishna ou colocando toda sua fé num só ídolo, como, por exemplo, Jesus Cristo.

Lewis Carroll, famoso autor de Alice no Pais dar Maravilhas, escreveu o poema "The Walrus and the Carpenter" que serviu, nas palavras de Lennon, de inspiração invertida para essa letra: Lennon acreditava ser a morsa o mocinho e o carpinteiro o vilão, para descobrir anos mais tarde que era exatamente o contrário. E, com isso, sem saber, sua música acabou tendo o sentido perfeito do "não sentido" em absoluto... o que era pra ser uma coisa, era na verdade outra e foi exatamente a imperfeição e a incorreição que contribuiram para tornar I Am The Walrus a confusão nonsense que ele queria.

Em LOVE somos levados a uma balbúrdia, uma mistura sem precedentes de imagens, sons e conceitos que poderiam nos parecer básicos, para nos deixar livres, em algum ponto, de acharmos que somos o que somos... E isso nos ajuda a ver como, no fundo, podemos fazer um bom trabalho nos livrando de conceitos e pre-definições, para nos construirmos, nos tornarmos, agora mesmo, o que quisermos!

Supostamente deveria ser esse o intuito de muitos "movimentos" que alcançaram projeção internacional mas acabaram, de uma forma ou de outra, se convertendo em modismos e se perdendo por aí, como o movimento hippie, a beat generation e os yogues europeus e americanos dos anos 60. Dizem que "I'm crying" é uma referência à incapacidade desses movimentos de se manterem focados no nonsense e na ausência de respostas, pois, quando se atribui uma resposta a uma pergunta qualquer, exclui-se uma infinidade de possíveis (e, as vezes, igualmente maravilhosos) significados.

E enquanto formos ao mesmo tempo the walrus, the eggman, the policeman, the naughty girl, you and me altogether, talvez estejamos no caminho de um goo goo g'joob g'goo goo g'joob!!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

4) Eleanor Rigby

Ah, look at all the lonely people!

Eleanor Rigby picks up the rice in the church
Where a wedding has been

Lives in a dream

Waits at the window
Wearing a face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people

Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?
Father Mckenzie, writing the words of a sermon
That no one will hear
No one comes near
Look at him working, darning his socks in the night
When there´s nobody there
What does he care?
All the lonely people

Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?
Ah, look at all the lonely people!
Ah, look at all the lonely people!

Eleanor Rigby died in the church
And was buried along with her name
Nobody came
Father Mckenzie wiping the dirt from his hands
As he walks from the grave
No one was saved

Em LOVE, assim como na história dos Beatles, Eleanor Rigby fala da solidão e da sensação de não pertencer ao mundo como ele se nos apresenta. Se a banda de Liverpool marcou com essa música em 1966 sua transição de uma orientação nitidamente pop para, gradualmente, se tornar uma banda mais séria e experimental, com incursões pelo então desconhecido mundo que não se ousava discutir em público (introspecção, abertura, sentido, etc.), da mesma forma, no espetáculo, marca-se a transição da observação e reconhecimento para a solitária jornada do auto-conhecimento e da reavaliação de conceitos, valores e símbolos que nos moldaram.

Nas linhas distintas e quase tristes do violino percebe-se a sensação de vazio de uma Eleanor Rigby como eu ou você, que na imensidão de um mundo dado e sugerido por terceiros ainda procura uma identidade, algo com que se relacionar. Nessa linha, se questiona e se pergunta, insistentemente, quem é essa gente toda e o que os trouxe até aqui. A pergunta é retórica e remete à dúvida que tem sobre sua própria origem. Sua própria criação, seu próprio mundo.... São realmente seus? Ou são os restos de arroz jogado no casamento que já passou? E essa vida que você e eu vivemos... Who is it for? PARA QUEM??

No decorrer do espetáculo, por diversas vezes, Eleanor Rigby passa e vaga carregando um enorme carrinho de tralhas, como se levasse com ela todas as suas lembranças, sentimentos, valores e coisas que tiveram significado na sua vida efêmera. Como se não pudesse ela (assim como o incauto espectador) se livrar de toda essa carga que comumente chamamos "passado", como se fosse parte de nós... como se esse passado, essas coisas todas, nos definisse e nos desse sentido. PARA QUEM?

Assim como Eleanor (e você), há um certo Padre McKenzie escrevendo um sermão para ninguém e costurando suas meias... vivemos como formigas, na verdade... cuidando das nossas vidinhas herméticas como se essas coisinhas que a gente acha tão importante fossem o que deveria dar a ela (a vida) o "sentido" merecido. Mas não é bem assim... Vivemos com base em padrões, paradigmas, comportamentos e balizamentos que não são verdadeiramente nossos. São inserções, sugestões e orientações que acabamos incorporando no dia a dia e nos nosso objetivos de vida... mas... PARA QUEM?

Outras vezes vivemos nossas vidas como estátuas solitárias, que não interagem a menos que seja para compor o cenário de alguém. Mas... PARA QUEM?

PARA QUEM, realmente, vamos à escola senão para nossos pais? Que criança aos 5 anos de idade deseja verdadeiramente adquirir cultura de massa, decorar as capitais dos estados da grande nação brasileira, aprender sobre frações e o número desconhecido (o famoso e inadvertido "x"), para mais tarde compreender as funções da mitocôndria e as metonínimas usadas no Grande Sertão Veredas?

PARA QUEM, realmente, saímos na balada e, no jogo fantástico da sedução adolescente (que não difere muito da sedução adulta e, no fim, da sedução idosa também), bebemos muito e atacamos "todas", senão para obter aprovaçãos nossos amigos e mostrar orgulhosos o número de beijos na boca dentro da linha da micareta, por exemplo?

PARA QUEM, realmente, escolhemos o curso da Faculdade, como se Faculdade fosse algo muito importante na nossa formação como HOMENS e MULHERES, senão em favor apenas de uma colocação condizente com nosso "esforço" no mercado de trabalho, futuramente?

E, quando o futuramente chega após essa Faculdade que achamos que escolhemos para nossa realização pessoal, mas, no fundo, escolhemos apenas para ter meios de obter sustento como nos foi dito, explicado e energicamente inserido em nossa lista de "objetivos", PARA QUEM, realmente, tentamos entrevistas e concursos a fim de obtermos um trabalho?

PARA QUEM desejemos, realmente, Ferraris e bolsas Louis Vutton? Ou gravatas Hugo Boss e Cocas-Colas? Ou mesmo um blog? PARA QUEM??

Assim como Eleanor (e eu), você será um dia enterrado com seu nome, enquanto um coveiro qualquer limpa as mãos da poeira e segue com sia vida. O mundo inteiro acha que é muito importante, que tem que deixar uma marca nesse mundo e representar de forma indelével um passo adiante em prol da humanidade. O mundo inteiro se acha especial quando, verdadeiramente, ninguém te dá a mínima. Ninguém está nem aí pra você se você concluiu ou não com mérito o Curso de Datilografia do Jardim Aliança (ou Medicina em Harvard, dá exatamente no mesmo em longo prazo).

A gente passa por aqui e o mundo segue o seu caminho sem qualquer interferência concreta da nossa participação terrena.

Assim como Eleanor Rigby, você não é especial senão para você mesmo e somente enquanto agir por você mesmo! Tudo o resto é faz-de-conta, uma forma de nos manter ocupados e distantes dessa realidade, um meio de impedir que nossa realização plena chegue cedo. Parece que tudo foi colocado para nós, em pleno final de primeira década do Século XXI, como que para que apenas percebêssemos o valor da vida ao seu final, no leito de morte. Tudo foi feito, orientado, programado e indicado para que você (assim como eu) abra mão de uma vida sua e viva a vida que o mundo quer para você.

E assim vivemos, dia após dia, amanhecer após amanhecer, o sonho que nos foi insculpido. Enquanto a vida real fica a um palmo de nossos narizes.

E toda essa gente solitária a nossa volta, que vida vivem eles? É a vida deles ou só estão ali como coadjuvantes do nosso ato? Where do they all belong, se apenas minha capacidade de vê-los os faz real na minha perspectiva? Se neste teatro que chamamos de vida cada um de nós é sempre o protagonista, então as coisas e pessoas que passam pela peça são o quê? E de onde vieram?
Mais importante: e o que isso importa?

I look at all the lonely people and NO ONE was saved...

Nem eu... nem eu...